Capítulo Um -- The Truth

 


 O sol se erguia no céu, tomando seu lugar de sempre. Ray assistia, da janela do próprio quarto, o espetáculo do nascer-do-sol. Para ele, era exagero proferir essa palavra à um evento que dá início a todos os dias calorosos que viviam, mas guardava o comentário pra si.

 Mais uma vez, o dia começou como qualquer outro que já vivera, mas esse dia tinha algo especial. Não era, como devo dizer, um simples detalhe, porém não era um acontecimento que mudaria a vida de milhares ou/e esse drama todo.

 Demorou exatamente uma hora para o relógio tocar, sinalizando as seis horas da manhã e acordando todo mundo. Quero dizer, acordou a Emma que, animadamente, fez questão de despertar todas as crianças. Ray ouvia aquela folia excessiva com sua costumeira impaciência. O moreno já tinha acordado há muito tempo, mas não queria sair do quarto.

 No corredor, o barulho de um monte de passos apressados se fez presente. Risadas altas eram ouvidas através das paredes um tanto finas. Esse mesmo som deixou um ser, de cabelo desgrenhado, bastante rabugento e aborrecido. "E lá se foi a paz", ele pensava consigo mesmo.

 Ficou tão absorto em seus pensamentos que levou um susto ao ouvir baterem na porta do quarto. Uma voz que conhecia bem disse para levantar logo, senão perderia a hora do café da manhã. Sem responder, esperou Conny sair e se alongou. Era hoje, Eles teriam que saber hora ou outra. Só precisava tomar cuidado para que Mama não descobrisse seus planos e os arruinasse.

 Ray calçou seus sapatos e passou a mão pela camisa que vestia, a ajeitando. Caminhou lentamente até a porta e rodou a chave na fechadura dourada, a destrancando. Passou pelo "arco" de madeira escura e o fechou atrás de si. Trancou a porta novamente e enfiou a chave no bolso.

 Logo após isso, ouviu o tilintar suave do sino, anunciando que a comida estava pronta e que todos deveriam ir à sala de refeições. Phil e outras crianças, o cumprimentando apressadamente. O garoto mais velho andava despreocupadamente, sabendo que se atrasaria, mas não deu importância.

 Durante a refeição, Emma demonstrava empolgação em contar o sonho que tivera naquela noite. Norman e Gilda ouviam, atentos a cada detalhe. Tendo um comportamento oposto ao dos amigos, Ray se concentrava em sua comida. Tal coisa era bem comum na verdade. Ele mal falava durante a alimentação, demonstrando à mesa.

 Mama precisou intervir na conversa quando as risadas interromperam seus próprios pensamentos. Ela explicou, docemente, que a hora da refeição é sagrada e que devemos ter modos na mesa, afim de mostrar respeito. A ruiva assentiu e se desculpou. O albino e a esverdeada seguiram seu exemplo.

 Após comerem, foram conduzidos para a sala de testes, onde fariam o teste daquela semana. Todos se acomodaram em suas cadeiras, colocaram o fone de ouvido e pegaram o scanner. Eles tinham apenas dez segundos para responder cada pergunta e isso com certeza dificultava para muitas crianças, principalmente Conny.

 Quando o teste acabou e as notas foram dadas, todos foram liberados. Emma e Gilda saíram de mãos dadas, conversando alegremente. Anna e Don pareciam meio distraídos. Ray já ia saindo quando Norman o alcançou e pegou na sua mão timidamente.

 No enorme campo, a grama verde brilhava a luz do sol, o vento balançava as folhas das árvores e os cabelos das crianças que corriam por aquela imensidão esverdeada. Ray já tinha pego um livro na biblioteca e o lia junto do albino ao seu lado, aconchegado em seu ombro.

 Horas se passaram, até que enfim anoiteceu. Todos jantaram e se juntaram para se despedir de Conny. A loirinha sempre fora muito próxima do moreno que tentava se segurar para não chorar. Os momentos que tivera ao lado da pequena lhe vieram à mente. Foi até ela e a abraçou.


一 Não se preocupe, Ray 一 Ela sorriu e passou a sussurrar 一 Escreverei cartas exclusivas para você.

 

 Ele a olhou afetuosamente e Mama disse que ela teria que ir. Furtivamente pegou o coelho e se levantou. Observou a loirinha acenar e ir embora. A dor e a culpa consumindo seu coração ao ver a pequena partir. Nunca mais a veria e isso o machucava.


一 Me perdoe, Conny 一 Sussurrou ao vento, sabendo que ela não ouviria.




 Já eram umas oito horas da noite. Todos faziam as tarefas para arrumar a Casa. Anna lavava os pratos e Nat enxugava, guardando em seguida. Don, Emma e Gilda limpariam a sala de refeições. Norman e Ray arrumariam os quartos. Thoma e Lannion organizariam os banheiros.

 Emma iria varrer o chão quando notou o coelho de Conny em cima de uma das mesas, se agarrando a vassoura ao se assustar. Norman e Ray já tinham terminado sua tarefa e chegaram à tempo para impedir que a ruiva desmaiasse.

 Ela pegou o coelho e disse que precisavam devolver.


一 A luz do portão ainda está acesa e a Mama não voltou 一 Ray disse calmo 一 Posso assumir o lugar da Emma enquanto vocês dois levam o coelho pra ela.


 Ambos assentiram e correram para o portão. A enorme grade estava aberta e mal conseguiram ver algo lá dentro, mas tentaram avistar Conny no local. Sem sucesso e sem indícios de perigo, entraram para explorar melhor. Andaram a passos lentos, olhando todos os lados com curiosidade.

 Havia um caminhão enorme que chamou mais a atenção deles. Cortinas finas cobriam a traseira do veículo e não tinha nenhuma escrita nas laterais do mesmo. Nada que indicasse de onde isso vinha ou para onde iria depois dali. Tudo soava bem misterioso e o albino foi olhar o banco do motorista, se inclinando sobre a janela alta.


一 Norman 一 Ouviu Emma o chamar quase sem voz.


 Foi até ela e a viu assustada, paralisada com uma cara de horror e espanto. Olhou para o lugar que ela encarava e uma onda de medo percorreu seu corpo junto de um arrepio. Sua mente tentava processar o que via, mas simplesmente travou no lugar.

 O corpinho da loira estirado em cima de alguns panos que se encontravam amontoados ali. Suas marias-chiquinhas continuavam no lugar. Olhos vazios fitando o nada. Uma flor vermelha com um longo caule delicadamente cravada no peito da menina. Um não, pareciam três caules enroscados uns nos outros, como uma trança desajeitada.

 Emma e Norman foram despertados de seus transes por grunhidos cada vez mais altos, indicando que algo se aproximava de onde estavam. Ambos se olharam e tiveram a mesma ideia. Correram e se esconderam debaixo do caminhão. E bem a tempo, devo dizer.

 Pés estranhos se aproximaram. Suas longas unhas, que mais pareciam garras, batiam no chão, o arranhando. Deram uma pequena espiada e novamente se assustaram. A cabeça era estranha, sendo composta, na parte da frente, por uma espécie de máscara branca, que devia ser sua face. Tal máscara parecia ser feita de ossos e tinham um ou dois olhos redondos enormes no centro.

 Um dos monstros abriu a boca, revelando uma longa e viscosa língua. Fileiras extensivas de dentes pontiagudos. Conny seria devorada? Era isso? Eles eram comida desses bichos estranhos e assustadores? Haviam mais deles? A dupla tinha muitas perguntas e nenhuma resposta para elas.


一 Olha só! 一 Exclamou uma das criaturas, parecendo animada 一 Essa parece em boa forma. E suculenta.


 Um grande cilindro de vidro foi colocado no chão, como se a criatura tivesse carregado aquele peso por um longo caminho. As bordas do cilindro eram de metal e reluziam na luz da lâmpada que pendia no teto. Dentro havia um líquido azul e brilhante. O tal líquido borbulhava, mas sua aparência aparentava que sua temperatura era fria e relaxante.

 

一 Outra ótima mercadoria 一 Murmurou outra criatura.


 O corpo despido de Conny foi jogado dentro do cilindro de vidro com brutalidade. O líquido envolveu o cadáver com delicadeza, absorvendo o impacto. O cabelo da loira estava solto e ondulava suavemente em frente ao rosto mortificado da menina. Uma visão agoniante.

 Estalos repetitivos ecoaram pelo local. Emma e Norman tentaram identificar de onde vinha ou o que era, mas demorou um pouco. O tal estalo era o barulho que as garras produziam ao bater em algo. A dupla teve a ousadia de espiar e viram uma prancheta nas mãos de outro monstro. Suas longas unhas acariciavam algo no topo da tal prancheta.


一 Esses três com as melhores notas parecem... apetitosos 一 Uma voz rouca disse.


一 Eles são excelentes, de fato.


 Foi impossível não reconhecer aquela voz. Um olhar impassível dominava o rosto de Mama.


一 Pena que aumentaram o tempo limite para entrega 一 Murmurou o rouco.


一 Serio?!? 一 Exclamou outra criatura.


一 Sim 一 Concordou. Uma clara insatisfação em seu tom 一 Só serão abatidos com dezesseis anos.


 Os monstros ficaram tão entretidos com a "carga" e a conversa que nem notaram quando a dupla saiu furtivamente dali, se escondendo nas sombras. Eles tentaram fazer silêncio enquanto estavam perto do portão, mas quando se viram longe daquele lugar, correram como se não houvesse amanhã.

 Suas mentes tentaram processar o que viram e as informações que ouviram daquelas criaturas medonhas. Eles mataram Conny e se referiram à ela como mercadoria. O lugar é uma fazenda? Foi isso que aconteceu com os outros? Eles eram comida?





~CONTINUA~






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